Paul Gauguin
Liberdade em relação à representação e uso da cor.

Da experiência urbana à abstração geométrica, sua pintura investiga como forma, cor, ritmo e espaço podem organizar a multiplicidade sem eliminar a tensão.


Edivaldo Silva é um pintor contemporâneo brasileiro com aproximadamente quatro décadas de produção artística.
Sua trajetória atravessa diferentes momentos — da formação figurativa às experiências oníricas, da investigação dos muros e cartazes urbanos à abstração geométrica atual. Mais do que uma sucessão de estilos independentes, seu percurso pode ser compreendido como uma transformação progressiva do modo de olhar.
Durante a investigação da cidade, Edivaldo voltou sua atenção para fragmentos frequentemente ignorados: cartazes rasgados, inscrições, rasuras, sobreposições, cores, apagamentos e superfícies marcadas pelo tempo.
Progressivamente, aquilo que inicialmente aparecia como imagem urbana começou a revelar relações próprias de forma, ritmo, cor e espaço. Essas relações ganharam autonomia.
Na produção atual, a geometria já não depende da representação literal do muro, embora preserve algo de sua fragmentação, multiplicidade e tensão.
A pesquisa permanece em desenvolvimento.
Quatro décadas de pesquisa
Mais do que estilos independentes, os períodos abaixo indicam transformações progressivas no modo de perceber e construir a pintura.
Formação figurativa
Figurativo onírico
Muros e cartazes / paisagens urbanas
Síntese e transição
Abstração geométrica
Datas aproximadas quando não há documentação exata.
Uma linguagem em construção
A geometria não aparece como ruptura. Ela emerge de dentro da experiência urbana.
Em determinado momento de sua trajetória, os muros e cartazes urbanos tornaram-se um território privilegiado de investigação.
Palavras interrompidas, superfícies desgastadas, sobreposições, rasgos e campos de cor já apresentavam uma espécie de composição involuntária.
Com o tempo, Edivaldo passa a perceber não apenas aquilo que esses fragmentos representam, mas as relações pictóricas existentes entre eles.
Faixas, círculos, retângulos, triângulos, repetições e campos cromáticos começam a adquirir autonomia.
O muro deixa progressivamente de ser necessário como imagem. A lógica que existia dentro dele permanece.

Uma obra de transição
2024
Fragmentos de palavras, símbolos e padrões geométricos se sobrepõem em uma composição vibrante, na qual cor, memória e comunicação constroem uma narrativa visual fragmentada.
A colagem traz o nome A Hora da Estrela, obra de Clarice Lispector, como homenagem à escritora.
Acrílica sobre painel rígido · 220 × 182 cm
Produção atual
Na produção atual, forma, cor, ritmo e espaço tornam-se protagonistas.
As composições de Edivaldo permanecem densas, atravessadas por diferentes direções, núcleos, repetições e campos cromáticos.
O equilíbrio procurado pelo artista não significa necessariamente simetria ou ausência de conflito. Trata-se de uma organização capaz de preservar multiplicidade e tensão sem permitir que a composição se desintegre.
A geometria funciona, assim, não como ponto final da trajetória, mas como linguagem em investigação.
Processo de criação
Apesar da organização geométrica de suas obras atuais, Edivaldo não costuma iniciar uma pintura a partir de uma composição inteiramente definida. Muitas vezes existe apenas uma sensação, uma cor, uma forma ou a própria necessidade de pintar.
Uma forma provoca outra.
Uma cor altera a relação com as demais.
Elementos podem ser cobertos, retirados ou reconstruídos.
A composição é construída diretamente sobre a superfície. O artista descreve esse processo como um diálogo com a própria pintura.
“Eu gosto justamente de começar sem saber completamente onde vou chegar.”
Referências e afinidades
Ao longo da trajetória, as referências de Edivaldo Silva também se transformaram. O artista reconhece aproximações distintas em diferentes momentos de sua produção.
Liberdade em relação à representação e uso da cor.
Força emocional da cor e capacidade de produzir experiência por meios aparentemente simples.
Geometria, síntese, cor e organização do espaço.
Construção de relações complexas a partir de formas e cores.
Afinidade com determinadas soluções da abstração geométrica.
Esses nomes são referências e afinidades apontadas pelo próprio artista e não devem ser apresentados como filiação direta de sua produção.
Em 2013, Edivaldo Silva apresentou no Espaço Cultural Frans Café Villágio, em Sorocaba, um conjunto de trabalhos ligado à investigação dos muros, cartazes e fragmentos da paisagem urbana.
A exposição reuniu oito obras em técnica mista e contou com apoio da Associação Brasileira de Arte — ABARTE.
Período: 28 de junho a 31 de julho de 2013 · Sorocaba/SP

Texto crítico
Oscar D’Ambrósio
Crítico de arte
AICA — Seção Brasil
Paredes da alma, o universo urbano está cada vez mais marcado pela multiplicidade de letras, palavras, imagens e cores. Esses elementos se combinam, condensam e multiplicam num conjunto de expressões muitas vezes vistas como confusas, mas que parecem muito mais carregar densos significados sobre o período em que vivemos.
As manifestações visuais geradas pelo artista plástico Edivaldo Silva dão a esse universo da rua um novo olhar. Suas criações partem daquilo que existe para estabelecer uma nova ordenação, própria, ou seja, uma interpretação, um recorte do que muitas vezes olhamos sem observar atentamente.
Dar ao que está no muro da cidade uma dimensão existencial artística é uma espécie de missão do criador visual. Cabe a ele essa função sutil de reordenar o caos do mundo de uma maneira pessoal, em um processo com dois momentos que se interpenetram: pensar sobre o que se faz e desenvolver o arcabouço técnico para atingir o que se almeja.
Trata-se de uma jornada que Edivaldo Silva busca realizar com equilíbrio. Reconhecer a temática dos muros pintados, pichados, grafitados e adesivos é o primeiro passo. O segundo é dar a eles um status de arte. O processo demanda lançar um olhar diferenciado e construir uma plasticidade individual. Assim, a caótica parede passa a expressar o olhar de uma alma.
Oscar D’Ambrósio é doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie e mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Unesp.

Nesta obra, círculos, faixas, retângulos e diferentes campos cromáticos disputam e compartilham a superfície.
A composição não depende de um centro único. Diferentes núcleos conduzem o olhar e produzem uma experiência de ritmo, deslocamento e tensão. A multiplicidade de elementos permanece organizada sem perder sua intensidade.
Da investigação dos muros e cartazes à abstração geométrica, a galeria reúne diferentes momentos de uma pesquisa em continuidade.
Deslize para ver mais →
Pesquisa em continuidade
Chegar à geometria não encerra a trajetória. Edivaldo continua investigando novas relações entre forma, cor, ritmo, escala e espaço, atento ao risco de que uma descoberta se transforme em fórmula.
Como construir equilíbrio sem eliminar a complexidade daquilo que provoca a pintura?
“Avançar significa aprofundar a linguagem e descobrir possibilidades que ainda não conhecia.”
